Políticas literárias do contemporâneo

Coordenação:

Celia Pedrosa (UFF)

Antonio Andrade (UFRJ)

Tema: Oralidade e escrita

Eixo temático: Transculturas, multiculturas, interculturas

Modalidade: Mesas temáticas (comunicações coordenadas)

Proposta:

Desde a realização de JALLA Brasil (Universidade Federal Fluminense, 2010), o simpósio "Políticas literárias do contemporâneo" tem reunido pesquisadores dedicados a pensar os desafios propostos pela heterogeneidade e expansividade dos procedimentos que vêm colocando em crise o cânone  moderno, enfatizando a discussão a respeito da imbricação entre efeitos estéticos e políticos da literatura. Na edição deste ano (JALLA Bolívia), o simpósio será coordenado pelos professores Celia Pedrosa e Antonio Andrade e se organizará em torno de duas mesas, cujos títulos, ementa e resumos serão os seguintes:

1ª MESA: Políticas literárias do contemporâneo I: relações entre literatura e língua

Discussão das interfaces entre literatura e língua na contemporaneidade, pensando o modo como o discurso literário latino-americano se produz a partir de diferentes formas de contato linguístico. Esses contatos se estabelecem não só entre as línguas neolatinas coloniais – sobretudo, o português e o espanhol – mas também entre essas línguas e as de países que formam o centro hegemônico da cultura ocidental – devido à influência da leitura literária, de outras artes que envolvem a linguagem verbal e da interação com produtos midiáticos que ultrapassam as fronteiras regionais. Não se pode desconsiderar ainda os contatos entre as línguas europeias e indígenas no contexto da produção atual. Todas essas relações problematizam concepções de nacionalidade e identidade, bem como associações simplistas entre literatura e território, na medida em que focalizam diferentes tonalidades expressivas e estéticas de enunciados produzidos a partir de processos de interlíngua, tradução e transculturação. Além disso, os trabalhos se propõem a refletir sobre o modo como a relação literatura/língua funciona como estratégia de discussão a respeito da dinâmica social, da memória histórica e dos processos de subjetivação que se produzem na tensão entre o comum e o singular.

Esta mesa será composta pelas seguintes comunicações:

Lo inactual, lo anacrónico y la memoria en la literatura argentina actual: de Ricardo Piglia a Alejandro García Schnetzer

Silvia Cárcamo (UFRJ)

En el contexto de las cuestiones contemporáneas sobre la memoria y la lengua literaria indagamos por el sentido de la presencia de lo inactual inscripto en el lenguaje de algunas obras de la literatura argentina reciente. Aspiramos a entender modos diversos de provocar una cierta “inadecuación” del lenguaje que retoma el gesto experimental que ambicionó crear por la literatura una lengua propia en el interior de la lengua común. Proponemos un recorrido que, partiendo del cuento “Las actas del juicio” (1968), mencionado en Los Diarios de Emilio Renzi (2015) como un trabajo de experimentación con una “oralidad arcaica”, pasa por los evidentes anacronismos rurales de la novela Blanco nocturno (2009), de Ricardo Piglia (1940) para arribar, por último, a la “lengua inactual” del joven novelista y traductor Alejandro Schnetzer en las narrativas Requena (2008), Andrade (2012) y Quiroga (2015).

Manoel de Barros: destroços da língua, matéria de poesia

Antonio Andrade (UFRJ)

A obra poética de Manoel de Barros mantém uma dupla orientação: reúne neologismos, estranhamentos sintático-semânticos, presença recorrente da metalinguagem a aspectos da oralidade, variantes linguísticas regionais, ruínas de gêneros de diferentes esferas (verbete, provérbio, ladainha, lista, diário, conversa etc.). Com isso, pode-se dizer que sua produção evita, de maneira crítica, a filiação às ideias de cosmopolitismo e “literatura planetária”, utilizadas pelo modernismo e pelo concretismo como critérios de valor. Tal percepção nos faz revitalizar discussões em torno da divulgação tardia do poeta nos anos 1990 (cf. SISCAR 2005), além de refletir sobre a continuidade do interesse por sua leitura na atualidade, no sentido de pensar seus textos como gestos performativos que tensionam discursividades e procedimentos rejeitados ou apropriados de maneiras distintas pela poesia brasileira moderna e contemporânea.  

O arquivo teórico da literatura comparada: sobrevivências, deslocamentos

Reinaldo Marques (UFMG)

A partir da perspectiva do discurso literário latino-americano, o trabalho examinará criticamente a sobrevivência e reapropriação de conceitos do arquivo teórico dos estudos literários comparatistas na contemporaneidade. Especialmente o de “literatura mundial”, propulsor de deslocamentos teórico-críticos. Levará em conta ainda tanto um processo de reinvenção da literatura comparada, à luz das interfaces entre literaturas e línguas no contexto latino-americano, quanto as pressões e coerções decorrentes de um espaço literário mundial, com efeitos estéticos e políticos. Como hipótese condutora da reflexão, perscrutará um movimento que busca superar uma libido de pertencimento, determinante na emergência e consolidação da literatura comparada enquanto disciplina acadêmica no mundo moderno, vinculada ao paradigma do Estado-nação. Movimento que desenha uma paisagem pós-disciplinar, marcada por um desejo expansivo e de abertura ao trabalho da imaginação, próprio do mundo contemporâneo.

Coordenador da sessão: Antonio Andrade

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Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro

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2ª MESA: Políticas literárias do contemporâneo II: formas mutantes

Discussão da importância do conceito de “formas mutantes” (MIRANDA, 2013), bem como seus desdobramentos relacionados às noções de estranhamento e excentricidade, avaliando de que modo o trabalho de ruptura com a forma funcionaria não apenas como modo de remissão da literatura contemporânea à tradição moderna e vanguardista, mas principalmente como potência de solicitação, desconstrução e perlaboração da memória histórica que habita o presente. Dessa forma, as comunicações aqui partem da relação entre tradição oral e letrada, do vínculo inexorável entre as atividades de leitura e escrita, bem como da interação entre distintas linguagens estéticas, entendendo o texto literário como espaço ainda de experimentação que desordena e ressignifica a experiência do contemporâneo. Serão abordados diferentes processos de transcodificação cultural que problematizam pressupostos de autonomia do objeto artístico, colocando em discussão as fronteiras entre a linguagem literária e a ensaística, autobiográfica, midiática, performática, política, entre outras.

Esta mesa será composta pelas seguintes comunicações:

Bioficções do contemporâneo

Wander Melo Miranda (UFMG)

A transformação em sujeito ficcional implica uma forma de subjetivação e com ela a sujeição a um determinado corpo/corpus visível como signo presente de uma coisa ausente. Se nesse entre-lugar "literário" a biopolítica pode ser observada com rigor, é porque o corpo (textual) contemporâneo se tornou uma reserva de resistência, não passível de regulamentação e controle, embora seus traços possam ser percebidos como uma relação diferencial das palavras e das coisas, uma nova narrativa comunitária de objetos e imagens. É o que se pretende discutir em textos de Silviano Santiago, Roberto Bolaño e Mario Bellatin.

Josely Vianna Baptista e a poesia como experiência do comum e do intraduzível

Celia Pedrosa (UFF)

O trabalho se propõe pensar a produtividade das noções de crise e expansão para avaliar a prática artística contemporânea. Através do foco na poesia de Josely Vianna Baptista, elas servirão para reavaliar a tradição moderna das relações entre verbal e visual, no que diz respeito tanto à materialidade da letra, da palavra e do verso, quanto à articulação de imagens do corpo, da terra e do território. Para isso, será fundamental uma tentativa de compreensão do poético que relativize distinções apriorísticas e hierarquizantes, e nele enfatize um modo de uso da língua enquanto habitação simultânea do estranho e do comum. Na poesia de Josely essa simultaneidade se evidencia também no trabalho de tradução, e no modo como este implica o convívio e a tensão de língua portuguesa, espanhola e guarani, assim como de experiências de repetição e experimentação.  

A poesia fora de si: notas sobre Alberto Pucheu e José Leonilson

Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG)

A partir das investigações teóricas – muito diferentes entre si, mas convergentes em certos pontos-chave – de Jacques Derrida (La loi du genre), Jean-Luc Nancy (Resistance de la poesie) e Josefina Ludmer (Literaturas posautónomas), pretendo observar como parte significativa da poesia (e da reflexão sobre poesia) contemporânea no Brasil tem sido feita fora dos marcos tradicionais do gênero e da forma poética. Mesclada a outras linguagens e possibilidades artísticas, a poesia vem apostando num afastamento de si, migrando para formas híbridas e intervalares como o ensaio ou mesmo escapando para fora do livro e da voz, seus nichos históricos, ao alojar-se ora nos muros e superfícies arquitetônicas (conforme dá a ver o trabalho crítico e criativo de Alberto Pucheu), ora nas telas e gravuras de um artista plástico como José Leonilson, cujo trabalho incorpora e transtorna a palavra escrita, transformando-a em poesia-imagem (o que não é o mesmo que a poesia visual, como se verá).

Coordenadora da sessão: Celia Pedrosa

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Instituição: Universidade Federal Fluminense