A colonialidade do poder e suas diferentes cosmologias no Brasil e no Peru: gênero, mídia e reinvenções

Tema y eje de la mesa: Articulaciones culturales

Título de la mesa: A colonialidade do poder e suas diferentes cosmologias no Brasil e no Peru: gênero, mídia e reinvenções

Títulos de las ponencias:

  • Entre silêncios, sons e ecos: sobre os testemunhos de prisioneiras políticas peruanas por Monica Vaconcellos Cruvinel – UNICAMP
  • O que é um terrorista? Fraturando a língua Aikewára por Maurício Neves Corrêa – UNESP Araraquara
  • Cosmologias Tupi: a história presente dos Tembé-Tenetehara por Ivânia dos Santos Neves – Universidade Federal do Pará

Nombre del coordinador de la mesa: Ivânia dos Santos Neves

Filiación institucional: (PPGL/PPGCOM - Universidade Federal do Pará

 

Resumen:

 

A colonialidade do poder e suas diferentes cosmologias no Brasil e no Peru: gênero, mídia e reinvenções

 

A América, a partir de enunciadores europeus, a princípio, e depois num processo agenciado pelas oligarquias locais, inscreve-se ideológica e politicamente, no Ocidente, como o “novo mundo” e este continente, mais do qualquer tecnologia ou práticas de racionalidades, são a grande “invenção” da modernidade. O moderno, no entanto, não é homogêneo e não se impõe sem luta e esta luta não é contra o “antigo” ou contra as “tradições”, mas sim uma luta pelo poder, uma batalha para desautorizar saberes e eleger outros sob o pretexto de uma lógica, legitimada por instituições e pessoas, uma luta pela subjetivação dos sujeitos, suas práticas e seu próprio corpo.

Nesta mesa, vamos tomar o sistema colonial como um poderoso dispositivo (FOUCAULT, 2001) de imposição de uma ordem discursiva, que se fratura (D. MIGNOLO, 2003) e se atualiza a partir da colonialidade do poder (QUIJANO, 2005). Com seus diferentes matizes, este dispositivo de poder prossegue hierarquizando saberes e práticas na América Latina e a moeda colonialidade/modernidade continua a se atualizar. Para Quijano (2005), as consequências destes diferentes processos estão intimamente relacionadas à constituição deste continente e a um novo padrão de poder mundial, cujos eixos principais foram a hierarquização racial e a administração, por vezes bélica, das formas históricas de “controle do trabalho, de seus recursos e de seus produtos, em torno do capital e do mercado mundial”.

Nos primeiros séculos da colonização ibérica na América Latina, o sistema colonial, como uma organização econômica, política e religiosa se impôs como uma ordem irrevogável e mesmo depois dos processos de independência, ele estava instituído nesta parte do continente (NEVES, 2009). Já no século XVIII, Inglaterra, França, Alemanha e Holanda dão novos contornos aos rumos do capital internacional e a hierarquização racial, assim como a exploração da mão de obra dos povos colonizados e a imposição de uma epistemologia eurocêntrica, que dará os contornos de uma cosmovisão superior e inquestionável, saem ainda mais fortalecidas. (D. MIGNOLO)

No século XX, sobretudo depois da Segunda Guerra, a participação dos Estados Unidos delineou uma nova partilha deste poder mundial e parte considerável deste processo se pautou no agenciamento de regimes autoritários, que ora se organizavam a partir de ditaduras militares, ora se apresentavam com sistemas judiciários e organizações civis comprometidas com interesses do capital internacional. A participação dos Estados Unidos nos rumos da história do Peru e do Brasil reforçaram os discursos propostos pela colonização europeia, mas se somaram a uma nova prática discursiva determinada a afastar a possibilidades de estados socialistas na América Latina. Nesta atualização, além de garantir as prerrogativas econômicas e políticas das oligarquias locais associadas ao capital estrangeiro, também se assegurou a partilha racial, sexista e epistemológica do poder na região.

Desde o início sistemático da colonização do continente americano, a cosmologia eurocêntrica passou a delinear uma ordem hegemônica, que determina inclusive as línguas oficiais da ciência ocidental, que são todas europeias. Este processo contínuo e difuso foi sempre marcado pela resistência a esta ordem e entre outros efeitos, produziu nas sociedades latino-americanas uma condição de “estar ou sentir-se entre”:

A diferença colonial cria condições para situações dialógicas, nas quais se encena, do ponto de vista subalterno uma enunciação fraturada como reação ao discurso e à perspectiva hegemônica. Assim, o pensamento liminar é mais do que uma enunciação híbrida. É uma enunciação fraturada em situações dialógicas com a cosmologia territorial e hegemônica. (MIGNOLO, 2003, p.11)

O objetivo desta mesa é analisar como o dispositivo sistema colonial, agora bastante agenciado pelos Estados Unidos, interferiu decisivamente nas experiências vividas pelas prisioneiras políticas peruanas e pelos povos indígenas brasileiros Suruí-Aikewára e Tembé-Tenetehara, na história do presente. Procuramos mostrar como este dispositivo ganha novos contornos, mas insiste em estabelecer na América Latina, uma espécie de memória superior, fundamentada na hierarquização de saberes, no sexismo e no racismo, que justifica o genocídio, a tortura, a expoliação de terras e a negação às particularidades culturais.

As três comunicações apresentadas nesta mesa são resultados de três diferentes projetos de pesquisa, todos com aporte em trabalhos de campo realizados no Brasil e no Peru, no período de 2010 a 2015, que se dispuseram a visibilizar memórias subterrâneas (POLAK, 1989), silenciadas pelas histórias oficiais, pela mídia, pela escola, pelas conversas cotidianas. Tomamos como principal referência as narrativas e os testemunhos orais, mas também consideramos as fronteiras midiáticas e a produção artísticas destes sujeitos.

A Guerra Civil no Peru pelo olhar das prisioneiras políticas, a participação dos Suruí-Aikewára na Guerrilha do Araguaia e o longo processo de demarcação da Terra Indígena Alto Rio Guamá dos Tembé-Tenetehara, no Brasil são os principais acontecimentos de que trataremos em nossas exposições. A partir de suas enunciações, procuraremos mostrar como enfrentaram as fronteiras políticas e simbólicas estabelecidas pelo Estado e pelo capital estrangeiro, o agenciamento de suas subjetividades a favor de um projeto eurocêntrico de modernidade e, sobretudo, suas táticas de resistência (DE CERTEAU, 1998).

A história das prisioneiras políticas do Peru e destes dois povos indígenas brasileiros são histórias latino-americanas, e como tal, enredam-se nestas tramas do poder mundial. Todos nós neste continente formos forjados em histórias de lutas e guerras, aprendemos a negociar nossas culturas, resultado de imposições, mas também, desde muito cedo, encontramos formas de reinventar a vida, mesmo diante das situações mais adversas.