Circulaçâo literaria e cultral na América Latina

Tema: Articulações culturais

Título de la mesa: Circulaçâo literaria e cultral na América Latina

Nombre del coordinador y filiación institucional: José Luís Jobim de Salles Fonseca (Universidade Federal Fluminense)

Resumen de la mesa:

A circulação literária e cultural na América Latina

Nessa mesa redonda, a circulação literária e cultural passará pelo ensaio, pela tradução e pelo exílio. A pergunta básica de nosso tema é: - O que acontece quando, em determinada sociedade, incorporam-se elementos culturais supostamente advindos de outra? A resposta é sempre problemática e complexa, quer estejamos falando de traduções, pessoas ou ideias, e que tem gerado, através dos anos, acirrados debates, com direito ao surgimento, continuação, alteração ou substituição de termos conceituais que de forma singular articulavam e relacionavam determinadas referências vigentes em um momento histórico, algumas vezes até gerando pedidos de desculpas por estar fazendo isso.

Quando Fernando Ortiz Fernández (1881 - 1969), em seu clássico Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar(1940) utilizou pela primeira vez o termo transculturação, desculpou-se pelo neologismo e explicou que sua intenção era substituir, pelo menos em parte, o termo aculturação, que, na época, estaria ganhando terreno na terminologia antropológica:

“Escolhemos o vocábulo transculturação para expressar os variadíssimos fenômenos que se originam em Cuba pelas complexíssimas transmutações de culturas que aqui se verificam, sem cujo conhecimento é impossível entender a evolução do povo cubano, tanto no aspecto econômico quanto no institucional, jurídico, ético, religioso, artístico, linguístico, psicológico, sexual e nos demais aspectos de sua vida (Ortiz, [1940] 1983, p. 86).”

No caso da chegada dos espanhois a Cuba, Ortiz chama a atenção para o fato de que estes foram desgarrados de seus ambientes originais e transplantados em um Novo Mundo, como mais tarde serão também levas de africanos de todas as comarcas costeiras, índios do continente, judeus, portugueses, anglo-saxões, franceses, norte-americanos e até chineses de Macau, Cantão e outras regiões. Para ele, cada imigrante no Novo Mundo transformava-se em um desarraigado de sua terra nativa, passando por um momento crítico duplo de desajuste e de reajuste, de desculturaçãoouexculturação e deaculturaçãoou inculturação, e, por fim, de síntese, detransculturação.A transculturação consistiria, portanto, neste sincretismo que, por sua vez, seria um produto do encontro em Cuba destas distintas culturas, transplantadas para um Novo Mundo, no qual, tanto para os que chegavam quanto para os que lá estavam durante essa chegada, teria de haver um reajuste para adaptação às circunstâncias locais, elas próprias alteradas com a contribuição desse encontro cultural.

O crítico uruguaio Angel Rama (1926-1983) retomou Ortiz para teorizar criticamente em Transculturación narrativa en América Latina (1982), chamando a atenção para o fato de que, entre outros fatores, a ideia de originalidade na literatura das Américas, depois do Romantismo, caminhou na direção do que postulou Andrés Bello: uma originalidade mediante a representatividade da região da qual surgia a literatura, pois esta se percebia como diferente da sociedade da matriz colonial, seja pelo meio físico, seja pela composição étnica, seja pelo diferente grau de desenvolvimento em relação ao que se imaginava como único modelo de “progresso”: o europeu (Rama, [1982] 1989, p. 13).

Rama, ao tratar dos “regionalistas”, no início do século XX, enfatiza o modo como a transculturação se dará, através da incorporação de elementos da modernidade “externos”, que são processados em contato com elementos do ambiente local, daí resultando um híbrido que é capaz de seguir transmitindo uma herança local, mas renovada com a articulação de novos elementos:

“No campo das artes dos anos vinte e trinta esta operação se cumpre em todas as correntes estéticas e com mais nitidez nas diversas orientações narrativas do período. Não é exceção o Carpentier que, ao escutar as dissonâncias da música de Stravinsky, agudiza o ouvido para redescobrir e agora valorizar os ritmos africanos que no pequeno povoado negro de Regla, em frente a Havana, se vinham ouvindo há séculos. Nem tampouco o Miguel Ángel Asturias que deslumbrado pela escritura automática considera que ela serve para resgatar a lírica e o pensamento das comunidades indígenas da Guatemala. No mesmo sentido, examinando Macunaíma, Gilda de Mello e Souza adianta perspicazmente a hipótese de uma dupla fonte que simbólicamente expressaria um verso do poeta (“Sou um tupi tangendo um alaúde”) para compreender a obra: “O interesse do livro resulta assim, em larga medida, dessa ‘adesão simultânea a termos inteiramente heterogêneos’ ou melhor, a um curioso jogo satírico que oscila de maneira ininterrupta entre a adoção do modelo europeu e a valorização da diferença nacional.”[1] (Rama, [1982] 1989, p. 29)

Antonio Candido, em um famoso ensaio de 1969, dizia que, na escolha dos instrumentos expressivos para a elaboração das obras literárias, há sempre uma dependência em relação ao que já está em circulação, e às hierarquias de um sistema internacional em que “países-fontes” gerariam uma dependência. Essa dependência, para Candido, quando considerada nas obras produzidas pelos “dependentes” seria “uma forma de participação e contribuição a um universo cultural a que pertencemos, que transborda as nações e os continentes, permitindo a reversibilidade das experiências e a circulação dos valores (Candido, [1969] 1987, p. 152).”

Candido tinha uma atitude muito crítica em relação a um certo nacionalismo que – principalmente em suas versões do século XIX – desejava ardentemente autonomia e originalidade absolutas e apresentava uma tendência a querer apagar os vestígios de laços culturais ainda presentes, sonhando com viveiros artísticos estanques, de onde supostamente sairiam obras livres de contatos e influências considerados “externos” ou “estrangeiros”. Coerentemente com essa atitude, nesse mesmo ensaio de 1969, Candido afirmava:

“Sabemos, pois, que somos parte de uma cultura mais ampla, da qual participamos como variedade cultural. E que, ao contrário do que supunham por vezes ingenuamente os nossos avós, é uma ilusão falar em supressão de contatos e influências. Mesmo porque, num momento em que a lei do mundo é a inter-relação e a interação, as utopias da originalidade isolacionista não subsistem mais no sentido de atitude patriótica, compreensível numa fase de formação nacional recente, que condicionava uma posição provinciana e umbilical (Candido, [1969] 1987, p. 154).”

[1] O trecho citado por Rama encontra-se em: SOUZA, Gilda de Mello e. O tupi e o alaúde. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades/ Editora 34, 2003. p. 61.

Títulos de las ponencias:

O ensaio latino-americano

Lívia Reis (UFF)

Tradução, alegoria e construção identitária na América Latina.

Rita Diogo (UERJ)

Filhos do exílio.

Eurídice Figueiredo (UFF)

O canibalismo como metáfora de apropriação cultural na América Latina.

José Luís Jobim (UFF)

Circulaçâo literaria e cultral na América Latina